PRA
QUEM GOSTA DE AUTOMOBILISMO
Carro movido
a cachaça
ERNESTO
LOPES DA FONSECA COSTA
(Fritz Utzeri - Jornal do Brasil
- 24/08/1980 - FE 24/02/2003)
UM
ENGENHEIRO PREVÊ A CRISE,
EM 1925
"Comprehende-se
bem, portanto, que o abastecimento
de petróleo se tenha tornado
o eixo de gravitação
da política internacional."
A frase, hoje, pode parecer banal,
mas quando foi dita, o aiatolá
Khomeiny era um jovem de 24 anos
e muitos dos potentados da OPEP
ainda usavam fraldas. Não
havia Estado de Israel, conflitos
entre árabes e judeus ou
perspectivas, mesmo remotas, do
uso do petróleo como arma.
Apesar
disso, a frase não foi
obra de nenhum profeta mas de
um simples engenheiro civil, Ernesto
Lopes da Fonseca Costa, que fez
uma conferência na Escola
Polytechnica do Rio de Janeiro,
em 1925, sobre O Álcool
como Combustível Industrial
no Brasil. Algum tempo antes ele
adaptara uma baratinha que correu
no Circuito da Gávea, abastecida
com "aguardente de 70 graus,
Gay Lussac", com um consumo,
ótimo para a época,
de 5 quilômetros por litro.
"PRODUCÇÃO
INSUFFICIENTE"
O
trabalho do engenheiro, que dirigia
a Estação Experimental
de Combustíveis e Minérios,
foi publicado em 1927 e no pequeno
fascículo amarelado pelo
tempo há uma foto do automóvel
Ford "que fez os percursos
Rio-São Paulo, Rio-Barra
do Pirahy e Rio-Petrópolis,
com álcool de 70 gráos,
dirigido pelo engenheiro Souza
Mattos".
O
engenheiro pode ser visto, de
capuz, óculos e guarda-pó,
como os chauffeurs de seu tempo,
sentado ao volante do fordeco
sujo e cheio de faixas do "Ministério
da Agricultura, Indústria
e Commércio", com
a informação: "Álcool".
Em
seu trabalho, ele começa
afirmando que "as applicações
que tem recebido o motor a explosão
nestes últimos 20 annos,
crearam para as nações
civilizadas o importantíssimo
problema de abastecimento em combustível
volátil".
Depois
de fazer o elogio do motor, que
permitiu ao homem "a mais
audaciosa de suas aspirações",
o avião, na época
ainda uma novidade tratada como
"o limite da imaginação",
o autor desce a considerações
atualíssimas.
Elle
nos informa que as reservas de
petróleo não se
encontram igualmente disseminadas
pelo planeta e afirma, textual:
"Por outro lado, a producção
mundial de petróleo começa
a se tornar insuficiente para
o consumo, que não se tem
mantido estacionário, mas
cresce de forma inquietadora."
E vai além: "Em 1920,
o consumo de petróleo no
mundo já era de cerca duas
mil vezes o de 1860."
"RESERVAS EXGOTADAS"
Ernesto
Lopes da Fonseca Costa previa
que "as reservas mundiaes,
conhecidas estarão exgotadas
em cerca de 80 annos apenas",
o que nos remete para o ano 2005,
previsão que continua válida
até hoje, como continua
a sangria de divisas com a importação
de óleo. Só que
naqueles idos as divisas eram
mais sólidas, pois em lugar
de dólares gastávamos
ouro.
"No
Brasil a a importação
de gazolina e kerozene já
contribue muito para o êxodo
de ouro. Só nestes dois
derivados de petróleo consumimos,
em 1924, 102 mil 500 Contos de
Réis." Apesar de informar
que "a nossa importação
cresce de anno para anno",
o engenheiro, certamente, ficaria
estarrecido com a nossa realidade
atual. Todo o dinheiro, ou mais
precisamente o ouro, usado para
comprar derivados em 1924 corespondem
hoje, duas reformas monetárias
depois, a apenas Cr$ 102 mil 500,
suficientes para pagar 2 mil 500
litros de gasolina comum.
A
preços de então,
o Brasil todo só poderia
gastar hoje sete litros de gasolina
por dia.
O
conferencista cita a guerra por
reservas petrolíferas e
fala "do ardor dos sábios
que procuram em seus laboratórios
realizar a synthese do producto
que a actividade humana vae tornando
tão escasso". Apesar
dos esforços da Sciência
e da informação
que, já em 1855, "o
grande sábio francês
Bertholet obteve a synthese do
petróleo pela hidrogenação
de substâncias orgânicas",
nada se conseguiu nesse terreno
e, ainda hoje, é imposslvel
obter petróleo sintético
em escala industrial e preços
competitivos, mais ou menos pelos
mesmos obstáculos apontados
então: "pressões
elevadíssimas de difícil
obtenção" e
a necessidade de atingir temperaturas
altíssimas para permitir
a síntese.
"PRODUCÇÃO
ÓPTIMA"
Já
naquele ano experiências
realizadas em Cuba e África
do Sul mostravam que era possível
apelar para fontes alternativas
de energia capazes de mover motores
a explosão. As mais comuns
eram misturas de álcool
com éter, ou ether como
escrevia o engenheiro, com benzol
ou mesmo com gasolina, em proporções
que variavam de 10% a 50%. No
Brasil, desde 1931 o decreto 19.707
tornava obrigatória a adição
de 5%, de álcool à
gasolina.
Ernesto
Lopes da Fonseca Costa defendia
o uso do álcool de baixa
concentração, produzido
no país, como a solução
para o problema de combustível.
"Possuímos magnífico
solo e clima para a producção
de matérias amylaceas e
assucaradas, já fabricamos
mesmo cerca de 150 milhões
de litros de álcool por
anno, isto é, mais de 70
vezes o nosso consumo de gazolina
e kerozene".
Com
essa idéia o engenheiro
passou a trabalhar no projeto
de adaptar o motor de seu Ford,
constatando logo - no plano teórico
- que combustíveis de menor
poder calorífico (o álcool
é menos calórico
que a gasolina) tém um
consumo maior - cerca de 25% a
mais usando-se álcool a
96° GL. Outro incoveniente
que encontrou foi a oxidação
parcial das frações
de álcool que escapam à
combustão e transformam-se
em "aldeydo, promovendo várias
perturbações no
motor pelo ataque às válvulas
e às paredes internas do
cylindro".
Mas
o engenheiro já ressaltava
que com o álcool de alto
grau (o álcool hidratado
vendido atualmente no país
é de 96 graus Gay Lussac,
sendo assim de alto grau) esses
problemas eram grandemente diminuídos,
principalmente quando se mistura
o álcool ao éter
ou à gasolina. Nas diversas
experiências realizadas
pelo engenheiro chegou a ser usado
álcool a 50 graus GL e
mesmo nessa concentração
baixa foi possível mover
o automóvel, desde que
a temperatura do combustível
não descesse a menos de
19 graus centígrados, o
que era feito pelo gás
do escapamento.
O
teste definitivo foi em agosto
de 1924, quando um carro Ford
provido de aquecedor de ar e abastecido
com aguardente" a 70 GL estreou
no Circuito da Gávea percorrendo
230 quilômetros, dirigido
pelo engenheiro Souza Mattos.
Detalhe: foi o único automóvel
de seu tipo que completou a corrida.
Daí
em diante o álcool ganhou
importância e nos anos 30
existiam no Rio cinco postos de
gasolina que vendiam álcool
combustível, a Azulina,
Motorina, Alcoolina ou Usga, algumas
marcas produzidas principalmente
no Nordeste onde em 1929 já
se vendiam 450 mil litros de álcool
combustível todos os meses.
Por Fritz Utzeri.
Notas da Redação:
Este
artigo foi publicado em 1980,
exatamente no momento em que os
EUA fomentavam a guerra entre
o Iraque e o Irã com o
intuito de derrubar o governo
iraniano do então aiatolá
Khomeiny. Naquele momento o Iraque
de Saddam Hussein era fortemente
armado, inclusive com ogivas químicas
para serem utilizadas contra o
vizinho. Sequer se tinha a noção
de que uma década depois
o mesmo Iraque iria tentar expandir-se
ocupando o Kuwait, provocando
assim a chamada Guerra do Golfo.
Também não se imaginava
que o consumo do petróleo
descontroladamente, sem investimentos
em tecnologias que o substituíssem,
viria ainda a criar o clima de
extremos em que vivemos nos dias
de hoje, 23 anos depois da publicação
deste artigo e 77 anos depois
da apresentação
da Conferência na Escola
Polytechinica do Rio de Janeiro
por este genial Engenheiro Ernesto
Lopes da Fonseca Costa, um brasileiro
com uma visão estratégica
invejável para sua época,
que realizou muito e, que se a
ele os governos tivessem dado
mais atenção, hoje
o Brasil estaria em outro patamar
no desenvolvimento de pesquisas
em diversas áreas ligadas
no emprego da tecnologia.
Mas
quem foi, afinal Ernesto Lopes
da Fonseca? Quem foi este fantástico
brasileiro que nos deixou há
50 anos, completos em dezembro
de 2002?
Seguem
abaixo dois registros realizados
após seu falecimento, que
se encontram editados em uma singela
publicação "In
Memoriam Fonseca Costa",
datado de 1953, pertencente a
Sra. Glória Maria da Fonseca
Costa, uma de suas filhas, a quem
também prestamos homenagem
por sua dedicação
e maestria na área da música,
sendo excepcional pianista e professora
de piano, lecionando ainda hoje
para diversos novos expoentes
e solistas da nova geração
pianistas brasileiros:

ERNESTO LOPES DA FONSECA COSTA
(Eng. Othon H. Leonardos - Revista
Engenharia, Mineração
e Metalurgia, dezembro/1952 -
FE 23/02/2003)
A
pequena turma que concluiu o curso
de engenheiros geógrafos
em 1911 e em 1913 o de engenheiro
civis, na Escola Politécnica
do Rio de Janeiro, singularizou-se
como fonte de professores dessa
venerada academia: Sebastião
Sodré da Gama, Octalício
Novaes da Silva, Gualter de Macedo
Soares, Edminudo Franca do Amaral,
Francisco Sá Lessa, Augusto
Paranhos Fontenelle, Allyrio Hugueney
de Mattos e, finalmente, Ernesto
Lopes da Fonseca Costa, que em
1928 sucedeu a Ferdinando Laboriau
, na cátedra de Metalurgia.
Quando lhe falhou o coração,
a 14 de dezembro de 1952, achava-se
Fonseca Costa em atividade, com
os seus 60 anos cheios de entusiasmo,
engendrando novos planos no Conselho
de Minas, no Instituto de Tecnologia,
na Escola de Engenharia e no Conselho
de Pesquisas embora, já
soubesse contados os seus dias.
Descendente de tradicionais famílias
brasileiras seguiria Ernesto,
com dedicação, a
carreira do pai - o engenheiro
Caetano Pinto da Fonseca Costa,
saído dos bancos da Politécnica
em 1883. Seu avô paterno,
o Marechal João da Fonseca
Costa, recebera do Imperador o
título de Visconde da Penha;
seu bisavô, Manuel da Fonseca
Costa, o de Marquês da Gávea.
Fora este um dos mais íntimos
do Duque de Caxias e de seu irmão,
o Conde de Tocantins, cuja neta,
dona Maria da Glória Cosme
Pinto, esposou Ernesto dando-lhe
duas filhas, as senhoritas Maria
da Penha e Glória Maria
da Fonseca Costa. Dona Ernestina
Lopes da Fonseca Costa, sua mãe,
de quem herdou o prenome, era
irmã do engenheiro Ildefonso
Simões Lopes, o qual, quando
Ministro da Agricultura, muito
se valeu da dedicação
de seu sobrinho Caetanao Lopes
da Fonseca Costa na chefia de
seu gabinete. Ao outro irmão
de Ernesto, o almirante Ayres
da Fonseca Costa confiou a Marinha
a construção da
fábrica de canhões
da Ilha das Cobras.
"Les bleus seront toujours
des bleus" - disse Lamartine.
A respeito de sua extrema simplicidade,
sempre demonstrava o professor
Fonseca Costa, na impecabilidade
de seus atos, o azul da sua ascendência.
"Não conheço
inteligência mais bela que
a sua" - repetia o saudoso
engenheiro Luiz Betim Paes Leme.
Além da inteligência,
um autêntico caráter.
Seu prazer máximo consistia
em ajudar quem quer que fosse,
nos problemas mais transcedentes
e, discretamente, eclipsar-se
no sucesso dos discípulos.
Neste sentido, sua vida tinha
algo de semelhante à de
um de seus mestres mais queridos:
Luiz Felippe Gonzaga de Campos,
sucessor de Derby na direção
do antigo Serviço Geológico
e Mineralógico do Brasil.
Foi a partir de 1920, ano em que
ingressamos no Serviço
Geológico, que passávamos
a estreitar relações
com esse espírito privilegiado.
A sala do diretor Gonzaga, na
Praia Vermelha, era um centro
incomparável de erudição,
com a presença costumeira
de expoentes da época,
interessados todos no desenvolvimento
de nossos recursos naturais: Antônio
Olinto dos Santos Pires, Arrojado
Lisboa, Capistrano de Abreu, Cincinato
Braga, Souza Bandeira, Luiz Betim,
Fleury da Rocha, Pires do Rio,
T. H. Lee, Horace Williams, Paula
Oliveira, Theodoro Sampaio, Alberto
Betim, Mindello, Fonseca Costa
e tantos outros. Semana não
se passava sem que o próprio
Ministro não viesse "bater
um papo" com Gonzaga e seus
amigos, fugindo assim aos políticos
que o assediavam com pedidos.
A verba total do Ministério
da Agricultura era, naquela época,
verdadeiramente ridícula;
mas Simões Lopes estava
sempre disposto a apoiar quaisquer
iniciativas do Serviço
Geológico.
Foi numa das reuniões,
na Praia Vermelha que Fonseca
Costa sugeriu a criação
de um laboratório para
ensaio de nossos combustíveis
e minérios, o qual surgiu
como surgem hoje as "favelas"-
no sopé do morro da Babilônia,
entre os fundos do Hospício
e o Túnel do Leme. Em precaríssimos
barracões improvisaram-se
tôscas gigas, mesas vibrantes
e células de flutuação
com que se fizeram os primeiros
estudos de lavabilidade dos carvões
do Rio Grande e Santa Catarina,
e de aproveitamento dos resíduos
piritosos, inclusive com um processo
de redução da pirita
ao estado de enxôfre elementar,
experimentado por Le Gall. As
idéias reunidas, de Gonzaga
e Fonseca, eram como misturas
explosivas: raciocinavam como
se o Brasil já estivesse
suficientemente maduro para aproveitar
suas riquezas potenciais e evitar
as restrições verificadas
durante a primeira Guerra Mundial.
Na realidade o país continuava
ainda na fase de colônia
agrícola, explorando (ou
melhor, devastando) suas terras
mais ricas. Sua incipiente indústria,
na maioria dos casos só
tinha de nacional o barulho das
máquinas importadas. Falar
em pesquisa, naquela época
era uma heresia.
Mas o fato é que, em 1922
a despeito da hostilidade ambiente,
já se colhiam ótimos
frutos da Estação
Experimental de Combustíveis
e Minérios, que como uma
célula viva, separava-se
cariocineticamente do velho Serviço
Geológico.
Se ao professor Fleury cabe a
honra de ter realizado em 1920-21,
na Europa as conclusivas experiências
de coqueificação
de nossos carvões do Sul,
teve Fonseca Costa o mérito
de reunir no Rio de Janeiro, em
fins de 22 o marcante primeiro
Congresso Brasileiro de Combustíveis,
em que foram apresentados os resultados
daqueles ensaios e onde, pela
primeira vez, se debateram amplamente
as características dos
carvões nacionais, as nossas
possibilidades de petróleo,
o problema da destilação
dos folhenos pirobetuminosos,
etc.
No começo de sua carreira,
Fonseca Costa dedicou-se pessoalmente
às pesquisas tecnológicas
executando, entre muitas coisas,
a fabricação de
ligas, em fornos elétricos
utilizando minérios ferro-manganesíferos
não exportáveis
e combustíveis inferiores
- como o linhito de Caçapava;
o estudo do rendimento na fabricação
do álcool e o emprego do
álcool como folhenos oleígenos
da bacia do Paraíba, antes
da sua pirogenização;
o estudo da redução
dos minérios de ferro em
baixa temperatura, com combustíveis
pobres (concluindo afinal pela
sua inviabilidade prática
e descorçoando os industriais
que pretendiam aqui instalar uma
usina siderúrgica trabalhando
pelo processo Smith); a fabricação
de refratários com a baddeleyita
de Caldas e seu emprego nos fornos
elétricos. Quando se instalou
a fábrica de cimento Perús,
deparou essa indústria
com o problema de não conseguir
um produto dentro das especificações
no tocante à magnésia
- donde a recusa, por parte das
grandes obras (como as que a Light
vinha executando em São
Paulo, por exemplo), de aceitar
o então único cimento
nacional; Fonseca Costa investigou
o assunto e garantiu a improcedência
dos receios, mostrando ser pouco
provável que o magnésio,
no seu estado em que se encontrava,
pudesse ter efeitos nocivos. Blocos
de concreto preparado com cimento
Perús acham-se, desde aquela
época imersos nas águas
da Guanabara e do porto de Recife,
sendo ensaiados de tempos em tempos
e comprovando sempre as afirmações
do mestre.
Fonseca Costa chegaria a chamar
a atenção do Governo
para o fato de que as nossas matérias-primas
vegetais e animais estavam também
a merecer estudos tecnológicos;
daí o seu propósito
de transformar a Estação
Experimental de Combustíveis
e Minérios em um Instituto
Nacional de Tecnologia. Levada
a idéia ao Presidente Washington
Luiz, este lhe prometeu apoio,
cedendo para a instalação
dos novos laboratórios
um terreno próximo ao Cais
do Porto. Não foi possível
entretanto, conseguir verba para
a construção do
edifício. Houve, por isso
surpresa, quando começaram
a se levantar as paredes do prédio
à Avenida Venezuela. -
De onde estaria saindo o dinheiro?
- indagavam as más línguas.
Na realidade o que estava acontecendo
era que o próprio pessoal
do Instituto resolvera explorar
a pedreira situada nos fundos
da Estação Experimental.
E quem recusaria a Fonseca ceder-lhe
um caminhão desocupado,
a fim de transportar este ou aquele
material para as suas obras? A
Perús, que não conseguira
fazer com que esse homem extraordinário
aceitasse qualquer gratificação
pelos valiosos serviços
a ela prestados, sentiu-se feliz
em poder fornecer-lhe o cimento;
a Cia. Cerâmica Brasileira
ofereceu os ladrilhos; Klabin,
os azulejos; as usinas siderúrgicas
nacionais disputaram entre si
a honra de contribuir com os vergalhões
de aço… E foi assim
que surgiu, como num conto de
fadas o Instituto Nacional de
Tecnologia.

Terminavam ainda as primeiras
instalações quando
a Revolução de 30
reviravolteou a administração
pública. Instalaram-se
as famosas comissões de
inquérito. O caso do INT
aparecia como um possível
escândalo do governo deposto.
Cedo porém verificou-se
que quase tudo alí fôra
obra graciosa, trabalho devotado
de técnicos esquivos à
publicidade, uma realização,
enfim dentre as que mais poderiam
honrar um país nos seus
anseios de industrialização.
A guisa de reparação
moral Arthur Neiva nomeado diretor
geral do novo Departamento de
Pesquisas imaginado pelo ministro
Juarez Távora, veio instalar-se
no próprio gabinete do
Diretor do Instituto Nacional
de Tecnologia, ao lado de Fonseca
Costa, a fim de levarem mais longe
um programa feito em comum.
Com a ulterior criação
do Ministério do Trabalho,
Indústria e Comércio,
o Instituto a ele se subordinou
tamando maior incremento.
Já o diretor Fonseca Costa
quase não dispunha de tempo
para realizar pesquisas individuais,
dedicado que se encontrava a incentivar
as investigações
de seus auxiliares. Mas todo o
seu escasso tempo de folga, dispendia-o
em seu novo Laboratório
de Metalografia realizando ainda,
esporadicamente, valiosas pesquisas
tecnológicas, sobretudo
quando surgiu a necessidade de
se investigar mais profundamente
a causa de certos acidentes -
como estas recentes rupturas da
adutora de Ribeirão das
Lajes.
De nada se orgulhava mais o esplêndido
mestre do que do grupo de pesquisadores
que ele conseguira criar nos seu
querido INT, já agora com
dez Divisões e várias
secções autônomas.
Recordaremos os nomes de alguns
desses discípulos: Na Divisão
de Insdústrias Químicas
Inorgânicas, Prof. Sylvio
Fróes Abreu, sucessor de
Fonseca Costa na Diretoria Geral,
e os químicos Rubem Roquette,
Yvonne Stourdze Visconti, Antonietta
Cantição e Nilza
Hasselmann de Figueiredo; na de
Indústrias Químicas
Orgânicas, Paulo Barbosa
Carneiro, que tanto brilhou atuando
na UNESCO, e os químicos-vegetais
Abraão Yachan, Ruben Descartes
de Garcia Paula, Moacir Silva
e José Luiz Rangel; Eros
Orosco e Arnaldo Feijó,
no setor metalúrgico; no
ramo das Indústiras de
Construção, os engenheiros
Paulo Pereira e Mario Brandi;
nas Indústrias Têxteis,
Dr. Antônio Schmidt Mendes;
Geraldo de Oliveira Castro, no
Laboratório de Borracha
e Plásticos; na Divisão
de Eletricidade, o Dr. Bernhard
Gross, autoridade mundial em raios
cósmicos, e os físicos
Gunther Kegel, Leda Lacerda e
Arthur Aaron; no Setor de Combustíveis
e Motores Térmicos, o Engenheiro
Heraldo Mattos; e finalmente Fleming
Axel Zeemann, no setor de Cerâmica.
Logo após graduar-se em
engenharia Fonseca Costa prestou
serviço na antiga Repartição
de Águas e Esgotos; foi
depois diretor técnico
das companhias de Energia Elétrica
e Viação Urbana
de Belo Horizonte e Elétro-Metalúrgica
de Ribeirão Preto. Também
membro da Comissão de Similares
e presidente da Comissão
de Álcool-Motor, que deu
origem ao Instituto do Álcool
e Açúcar; da Comissão
de Metalurgia, que propôs
a criação da Companhia
Siderúrgica Nacional; do
Conselho Nacional do Petróleo;
membro, ainda, de outras comissões
de estudos, tendo comparecido
a vários congressos no
estrangeiro.
Foi professor de metalurgia na
Universidade Católica e
na Escola Técnicoa do Exército.
Realizou em 1932 um curso sobre
energia elétrica, na Sorbonne,
tendo recebido nessa ocasião
título de professor "honoris
causa"da Universidade de
Paris. Pelos relevantes serviços
prestados à Marinha Brasileira,
durante a Segunda Guerra, recebeu
a medalha do Mérito Naval.
Mereceu, também, a medalha
de ouro da Associação
Brasileira de Metais, e outras
honrarias.
Durante anos dirigiu os trabalhos
do Conselho Nacional de Minas
e Metalurgia, com tal prestígio
que todas as discussões
por mais acaloradas que as houvesse,
terminavam sempre em votação
unânime. Jamais impunha
ele a sua opinião nem encerrava
qualquer debate enquanto não
se convenciam todos diante dos
argumentos mais justos. Questões
como as do carvão nacional,
dos fertilizantes, etc., que ele
considerava entre as mais importantes
nunca tiveram ponto final: "São
problemas permanentemente em ordem
do dia" - declarava sempre.
E exemplificava: - Como poderemos
concordar que os desavisados engenheiros
da Prefeitura queimem o tão
volumoso quanto tão valioso
lixo da cidade, desperdiçando
seu conteúdo de materiais
fertilizantes, quando na própria
Capital Federal vive-se à
mingua de alimentos por causa
da escassez de humus e elementos
nobres no solo da Baixada Fluminense?
Não tendo, por proibição
médica, podido comparecer
à última reunião
do Conselho de Minas, mandou a
seus colegas, em 11 de dezembro,
juntamente com uma delicada mensagem
de Natal a sua derradeira indicação,
neste termos:
"Senhores Conselheiros:
Cabendo ao Conselho Nacional de
Minas e Metalurgia orientar os
Poderes Públicos no que
se relaciona ao desenvolvimento
e progresso da indústria
metalúrgica no Brasil,
e considerando que tal desenvolvimento
e progresso não poderão
ser realizados apenas se nos basearmos
na experiência alienígena,
dadas as condições
especiais dos nossos minérios,
combustíveis, fontes de
energia, etc., proponho que seja
organizado por este Conselho um
programa de pesquisas científicas
e tecnológicas que interessem
diretamente à siderurgia
e à metalurgia de metais
não ferrosos, a fim de
ser o mesmo encaminhado ao Conselho
Nacional de Pesquisas, órgão
indicado para apoiar e financiar
tais empreendimentos.
Sugiro portanto que seja reservada
uma semana no mês de janeiro
do ano vindouro para a elaboração
de tal programa e sejam convidados
a colaborar com este Conselho
técnicos de institutos
científicos e de companhias
especializadas no assunto".
- Fonseca Costa.
Seu corpo foi sepultado, diante
da consternação
de amigos ilustres, no Cemitério
de São João Batista,
onde o Almirante Alvaro Alberto,
em nome do Conselho de Pesquisas
e os engenheiros Flávio
Ribeiro de Castro e Mário
Pinto, respectivamente no de seus
colegas de turma e no da Academia
Brasileira de Ciências,
disseram da saudade que a todos
empolgava. O magnífico
exemplo de Ernesto Lopes da Fonseca
Costa, os frutos de suas pesquisas
e lições, perdurarão
todavia, e os estudiosos de amanhã
reconhecerão que ele realmente
foi como disse o Presidente da
República, um grande brasileiro!
A
MORTE DO PROF. FONSECA COSTA
(Ministro
Ivan Lins - Correio da Manhã
- 16/12/1952 - FE 23/02/2003)
Imenso
claro abriu-se no campo das ciências
e das pesquisas tecnológicas
do Brasil com o falecimento do
engenheiro Ernesto Lopes da Fonseca
Costa, catedrático de Metalurgia
da Escola Nacional de Engenharia,
ocorrido no domingo último.
Homem de sólida e variada
cultura científica, em
condições de discorrer
sobre qualquer aspecto de problemas
das ciências naturais, que
da matemática, quer da
física ou da química,
dominando as mais recentes teorias,
e conquistas da física
nuclear, era ainda um pesquisador
de excepcional mérito.
Preocupado desde a mocidade com
a determinação das
características das matérias
primas do Brasil, foi ele quem
fundou em 1922 a Estação
Experimental de Combustíveis
e Minérios, empreendimento
em que foi incentivado pelo geólogo
patrício Gonzaga de Campos.
Dedicou toda a sua vida aos grandes
problemas econômicos nacionais,
no campo do carvão, do
petróleo, do álcool-motor,
do manganês e de todas as
indústrias básicas.
Num tempo em que a pesquisa pura
no Brasil era senão uma
utopia, uma temeridade, pela incompreensão
geral dos governos e do público,
Fonseca Costa entregou-se, com
idealismo ao seu cometimento científico
e conseguiu - sabe-se lá
através de quantas lutas
e sofrimentos - transformar a
primitiva Estação
Experimental de Combustíveis
e Minérios no atual Instituto
Nacional de Tecnologia, para onde
atraiu uma pleiade de pesquisadores
que já tem dado prova de
que o Brasil é capaz de
realizar no domínio da
pesquisa pura e do campo tecnológico.
Eis aqui apenas alguns nomes dos
cientistas que Fonseca Costa agremiou
em torno do seu Instituto: Paulo
Sá, Sylvio Fróes
Abreu, Bernhard Gross, Eros Orosco,
Gomes de Faria, Lobo Carneiro,
Arnaldo Feijó, Oliveira
Castro, Fernando Lobo Carneiro,
Rubem Descartes, Moacir Silva,
Schmidt Mendes, José Luiz
Rangel Roquette.
Convencido de que a opulência
industrial da América do
Norte se deve, em grande parte,
aos institutos e laboratórios
de pesquisa de que são
exemplos, entre centenas de outros,
o "Bureau of Standard","
o "Bureau of Mines",
e a "Carnegie Institution",
operou Fonseca Costa o milagre
de organizar o "Instituto
Nacional de Tecnologia",
abrangendo os seguintes setores:
1) Indústrias Químicas
Inorgânicas;
2) Indústrias Químicas
Orgânicas;
3) Indústrias Metalúrgicas;
4) Indústrias de Construção;
5)
Indústrias de Fermentação;
6) Indústrias Têxteis;
7) Combustíveis Industriais
e Motores Térmicos;
8) Divisão de Metrologia;
9)
Divisão de Eletricidade
e Medidas Elétricas;
10) Laboratório de Borracha
e Plásticos,
além de um serviço
modelar de desenho e de uma explendida
Biblioteca científica e
tecnológica. Quem conheceu
na Praia Vermelha, a humilde Estação
Experimental de Combustíveis
e Minérios, montada em
galpões instalados em terrenos
do antigo Serviço Geológico
e hoje contempla o palácio
de pesquisas que Fonseca Costa
conseguiu erguer na Av. Venezuela,
não pode deixar de concluir
que o fundador do Instituto Nacional
de Tecnologia realizou o ideal
de Alfred de Vigny nos versos
famosos:
"Qu' est-ce qu'une grand
vie? Une pensée de la jeunesse,
exécutée par l'áge
mur..."
Mas o que tornava Fonseca Costa
uma personalidade invulgar não
era só a sua polimorfa
inteligência: eram ainda
a bondade e seu trato pessoal
de uma delicadeza e fidalguia
extremamente raras. Era um cientista
forrado de gentleman, sentindo-se
tão à vontade no
seu laboratório de pesquisas,
quanto nos salões da sociedade
mais requintada. Lembrava diante
do seu fôrno metalúrgico,
a figura do Marquês de Buffon
ao escrever com punhos de renda
as páginas de sua "História
Natural".
Apesar dos altos cargos que desempenhou,
nunca soube o que era a "importantite".
Mas a sua bondade não jazia
apenas no fundo do seu coração;
extravasava-se através
de seus gestos. Ninguém
mais do que ele praticou a polidez,
que os moralistas consideram o
primeiro grau de virtude, pois
os ensina, em coisas secundárias
e pequeninas, mas constantemente
renovadas, a nos vencermos em
favor dos outros. Para todos os
seus subordinados, desde os mais
graduados aos mais humildes, era,
antes de tudo, o amigo solicito
e prestimoso.
Nos primeiros dias do mês
corrente, recebeu o Dr. Fonseca
Costa, um ofício do ex-Prefeito
João Carlos Vital, solicitando
a colaboração do
Instituto Nacional de Tecnologia
para as pesquisas da causa das
rupturas que vêm ocorrendo
nos tubos da segunda adutora de
Ribeirão das Lajes. Interessado
em fornecer todos os subsídios
de ordem técnica especializada,
indispensáveis à
Comissão nomeada para estudar
o caso, chamou o Dr. Fonseca Costa,
diretamente a si, a orientação
dos trabalhos a serem realizados,
não obstante o seu já
precário estado de saúde.
Traçados por ele as linhas
mestras a seguir, prosseguiu o
Dr. Feijó, diretor da divisão
de Indústrias Metalúrgicas
do Instituto de Tecnologia as
pesquisas, dando a cada passo,
por telefone, ao Dr. Fonseca Costa,
notícias do desenvolvimento
do trabalho por ele planejado.
E assim, em cerca de dez dias
apenas, foram obtidas as conclusões
documentadas sobre as causas das
avarias - exatamente as formuladas
em hipótese prévia
pelo extinto: a "stresse-corrosion".
Esse resultado causou espanto
aos engenheiros norte-americanos
especialmente vindos ao Rio para
estudar in loco o caso e que concordaram
plenamente com as conclusões,
pois eram as mesmas a que haviam
chegado nos Estados Unidos, após
estudarem rupturas ocorridas em
adutoras instaladas na Venezuela.
Ainda horas antes de falecer,
ocupou-se o Dr. Fonseca Costa
com o assunto em companhia do
Dr. Arnaldo Feijó.
Por atribuição do
Presidente da República,
vinda ainda o Dr. Fonseca Costa
realizando estudos para a verificação
das especificações
relativas ao trator Fiat, modelo
25R. a ser produzido pela Fábrica
Nacional de Motores, para revenda
aos agricultores do país.
São os seguintes os principais
dados bio-bibliográficos
do Dr. Fonseca Costa:
Nasceu em 22 de junho de 1891,
sendo filho do engenheiro Caetano
Pinto da Fonseca Costa e de Dona
Ernestina Lopes da Fonseca Costa,
irmão do saudoso Dr. Ildefonso
Simões Lopes. Descendia
de uma das famílias mais
tradicionais do Império,
pois era neto do Marechal João
da Fonseca Costa, Visconde da
Penha e bisneto do íntimo
amigo do Duque de Caxias, Manoel
Antônio da Fonseca Costa,
Marquês da Gávea.
Deixa viúva Dona Maria
da Glória Cosme Pinto da
Fonseca Costa, neta do irmão
de Caxias, Conde de Tocantins,
e duas filhas, as senhoritas Maria
da Penha e Glória Maria
da Fonseca Costa. Era irmão
do contra-Almirante Aires da Fonseca
Costa. Formou-se em engenharia
em 1913, pela antiga Escola Politécnica
do Rio de Janeiro. Era professor
catedrático, por concurso
da cadeira de Metalurgia da mesma
Escola, desde 1928. Fundador da
antiga Estação Experimental
de Combustíveis e Minérios
do Ministério da Agricultura.
Fundador e Diretor Geral do Instituto
Nacional de Tecnologia. Professor
"honoris causa" da Academia
de Ciências da Universidade
de Paris (Sorbonne), onde realizou,
em 1932, um curso sobre Energia
Hidráulica. Membro e atual
Presidente do Conselho Nacional
de Minas. Membro do Conselho Nacional
de Pesquisas. Ex-membro do Conselho
de Segurança Nacional.
Professor e um dos fundadores
da Escola de Engenharia da Universidade
Católica. Ex-professor
de Metalurgia da Escola Técnica
do Exército. Ex-membro
do Conselho Nacional do Petróleo.
Recebeu a medalha do Mérito
Naval pelos relevantes serviços
prestados à Armada Nacional,
pertencendo à Academia
Brasileira de Ciências.
No início de sua vida profissional,
como engenheiro, prestou serviços
à antiga Repartição
de Águas e Esgotos, onde
serviu durante cerca de 2 anos.
Foi também Diretor da Cia
de Energia Elétrica e Viação
Urbana de Belo Horizonte e Diretor
Técnico da Cia Metalúrgica
de Ribeirão Preto.
Além de todos esses encargos,
exerceu ainda as seguintes comissões:
Membro da Comissão de Similares.
Presidente da Comissão
de Estudos do Álcool-Motor.
Membro da Comissão organizada
do Instituto do Açúcar
e do Álcool. Membro de
diversas comissões nomeadas
pelo Governo para o estudo do
contrato da Itabira Iron. Membro
do Conselho de Recursos da Propriedade
Industrial. Em 1939 foi designado
pelo Governo para aquisição,
em França, dos Padrões
de Pesos e Medidas e prosseguiu
nos estudos da fabricação
do coque metalúrgico. Para
tal fim visitou a Inglaterra,
Alemanha e Suiça. Em seguida
foi a Washington estudar a organização
do Bureau of Standard. Em 1947,
representou o Brasil no Congresso
de Laboratórios.
Entre outras, deixa o Professor
Fonseca Costa as seguintes publicações:
"Trabalhos feitos durante
o ano de 1922 na Estação
Experimental de Combustíveis
e Minérios", 1926;
"O Álcool como combustível
insdustrial no Brasil", 1927;
"Possibilidades econômicas
do carvão de Santa Catarina",
1928;
"Carburante nacional",
1932;
"Notas em torno do problema
siderúrgico nacional",
1935;
"Instituto Nacional de Tecnologia
e seus fins", 1935 e
"Nota sobre a cinemática
do sistema Fe-O-C", 1937.
Sepultou-se domingo último,
no cemitério de São
João Batista.