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Os lucros no caminho do cliente
Para consumidores em trânsito, o que importa é a agilidade

Aline Abreu

Transformar o comprador eventual em cliente fiel está entre os principais desafios de qualquer comerciante. Que dizer, então, daqueles cujo público-alvo é formado por consumidores em trânsito? Instaladas em aeroportos, rodoviárias, estações de barcas, trens ou metrô, as lojas de passagem têm na velocidade do atendimento o melhor aliado para atrair e cativar a clientela. Nesse formato de varejo, fidelização não chega a ser prioridade. Importante é unir qualidade a agilidade. "O consumidor que está de passagem não se preocupa com um atendimento cinco estrelas.

O lojista deve preparar-se para atender o máximo de pessoas no menor tempo possível", ensina o consultor Ulysses Reis, coordenador do curso de Master in Business Administration (MBA) em Varejo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). Com esta preocupação em mente, a unidade do Bob's na estação de catamarãs, na Praça XV, teve não só que comprar máquinas especiais como simplificar o layout dos produtos e treinar os vendedores para atender o consumidor em cerca de 35 segundos.

Numa unidade convencional, o tempo de espera pode chegar a dois minutos, impensável para este nicho de clientes, já que o intervalo entre uma embarcação e outra em horários de maior movimento é de apenas quatro minutos. - O consumidor paga e quase imediatamente tem nas mãos o pedido. Nos horários mais críticos, deixamos a operação semi-pronta - assinala Hélio Buarque, diretor de operações da rede de fast food. Sempre com pressa A pressa do cliente também faz da unidade da De Plá na Central do Brasil exceção entre as lojas da rede especializada em artigos de fotografia. Tendo a qualidade do atendimento como base de sua política de fidelização, a De Plá costuma orientar vendedores e franqueados sobre a importância de atrair o comprador para o interior da loja. Na estação de trens mais famosa do País, a regra é esquecida. - Aqui, os clientes que desejarem são atendidos no balcão externo. Mais de 70% não entram na loja por medo de perder o trem - diz Cícero Costa, gerente da unidade, inaugurada há um ano e cinco meses. É tanta a necessidade de rapidez que acaba sobrando pouco tempo para o envolvimento entre vendedor e cliente. Como acontece nos quatro quiosques da Estação do Sabor, distribuídos entre as extremidades da Central do Brasil.

Cada uma das barracas de biscoitos fatura, em média, R$ 95 por dia, o que significa a passagem de pelo menos 60 pessoas. - Já tivemos dia de vender R$ 400 - observa Silvana Ramos da Silva, atendente de uma das unidades. Com tanto movimento e rotatividade, a vendedora conta não ter como saber quem são os consumidores. "Às vezes, não dá nem para saber quem está sendo atendido." Celulares de sucesso Bob's e Estação do Sabor são, ao lado de outras lojas de alimentos, maioria em áreas de passagem. O que não significa, porém, que outros ramos do comércio estejam excluídos. Prova de que nem só lojas de comida são bem aceitas em aeroportos, rodoviárias e estações é a Cell Lider, de telefones celulares, que há dez meses inaugurou quiosque de cerca de 25 metros quadrados na estação Carioca do Metrô-Rio. Por mês, o quiosque chega a vender 100 aparelhos de telefone celular, número semelhante ao da loja da empresa no São Conrado Fashion Mall. "A demanda de consumidores é até maior do que poderíamos imaginar. As pessoas passam por aqui e dizem o que querem.

Muitos até lembram que precisam de determinados acessórios ao passar", destaca Enilza Mesquita Ferreira, vendedora da loja. É justamente aproveitando-se do esquecimento alheio que a Povel Modas mantém-se por 25 anos na Rodoviária Novo Rio. Tem de tudo um pouco - de pilhas a blusas de malha, passando por lembranças da cidade. "Ganhamos na venda de artigos que a pessoa esqueceu de colocar na bagagem. Mais de 80% das vendas seguem esse perfil", diz a vendedora Martha Maria Fernandes. queda no preço das passagens favorece lojista Aeroporto sempre foi associado a pessoas ansiosas para chegar aos seus destinos.

No entanto, como é preciso comparecer com certa antecedência para marcar o lugar no vôo e despachar malas, o passageiro acabaria entediado de tanto esperar não fossem as lojas de importados, livros, cabeleireiro etc. A queda nos preços das passagens aéreas veio para aquecer os negócios dos comerciantes instalados no Aeroporto Santos Dumont. A H.Torres, que abriu as portas em 1992 e tem em suas prateleiras bombons, licores, vinhos entre outros produtos estrangeiros, viu o movimento aumentar 20% nos últimos meses. - Os clientes são, principalmente, executivos, acostumados a ir semanalmente a São Paulo - diz Valquíria Lopes, supervisora de vendas. Tratar dos cabelos em pleno aeroporto ou quem sabe aproveitar para fazer aquela manicure que foi adiada durante a semana por falta de tempo? Sim, ambos são possíveis.

E têm adeptos. Tanto que o salão Primeira Classe, na área de embarque do Aeroporto Tom Jobim, tem uma equipe de quatro manicures e cinco cabeleireiras para dar conta do recado. - Tem dias em que atendemos 50 clientes, sendo 50% habituais. Nunca acontece da pessoa ficar esperando. O costume é perguntarmos quanto tempo ela tem disponível. Trabalhamos de acordo com o horário - conta a manicure Luzinete Alves de Freitas, que volta e meia tem apenas 15 minutos para tirar a cutícula das unhas da mão, metade do tempo normal.

Com mais de 25 lojas espalhadas pelo País, rede Sodiler tem, na loja do Aeroporto Tom Jobim, uma das recordistas de movimento. Também pudera. No ano passado, pelas contas da Infraero, 5,9 milhões de passageiros embarcaram no terminal. "O ticket médio do consumidor é equivalente ao das lojas da Zona Sul, em torno de R$ 60. Chegamos a atender 3 mil pessoas por dia, a maior parte brasileiros que querem levar alguma leitura para passar o tempo no avião", diz Urbano Soares, gerente da loja. Oportunidades e cuidados De olho no filão de varejo que vem ganhando adeptos, SuperVia e Metrô-Rio estão oferecendo lojas em suas estações. Ambas as concessionárias fazem apenas a exigência de que o comerciante encaixe-se no mix previsto e não mexa com frituras - é proibido por lei ter fogo e usar gás em áreas que não tenham janelas e exaustores. No Metrô-Rio, são 40 pontos-de-venda ainda disponíveis para locação. O preço dos aluguéis variam entre R$ 800 e R$ 4 mil mensais. Não há luvas ou taxa condominial e os gastos com energia elétrica são divididos entre os lojistas.

A estimativa da concessionária é de que passem pelos corredores das 17 estações do Metrô-Rio cerca de 450 mil pessoas por dia. Com projeto nos mesmos moldes, a SuperVia pretende explorar comercialmente o espaço de outras estações, a começar pela da Nova Iguaçu, onde estão sendo construídas 40 lojas. O preço do aluguel, no entanto, ainda não foi fixado. DICAS. O primeiro passo do lojista que pretende instalar-se em um local de passagem deve ser analisar o público e os hábitos de consumo dos que costumam circular por esses espaços. É o que recomenda Alberto Serrentino, sócio-diretor da Gouvêa de Souza e MD, que tem em sua carteira clientes como Lojas Renner, O Boticário e Wal-Mart.

A exposição dos produtos e a escolha das mercadorias que serão oferecidas também merecem atenção do empreendedor. "Não adianta colocar na prateleira dez marcas diferentes de um mesmo produto. É melhor ter cinco marcas e espaço suficiente para oferecer outras mercadorias", aconselha. Ou seja, em vez de dez marcas de sabão em pó, o melhor é garantir espaço também para o amaciante.

Para não errar, outra sugestão é dispor de produtos de conveniência - aqueles que o consumidor não se programa para adquirir e só lembra que precisa deles ao vê-los, como pilhas, jornais, revistas e cartões telefônicos.

SERVIÇO:
Metrô-Rio, 296-6116 e 516-1123 SuperVia, 563-2222

FONTE= JORNAL DO COMMERCIO = 26.05.01