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A
política de preço e o desenvolvimento do mercado GNV brasileiro
O
mercado de GNV brasileiro passa por um extraordinário período
de crescimento, conforme comprovam os índices recordes de
conversões de veículos para o GNV e a evolução das vendas
de GNV nos postos. A partir das projeções de crescimento acelerado
da frota e do número de postos e da realização de grandes
investimentos em toda a cadeia produtiva do gás natural veicular
podemos concluir que este mercado está longe de sua saturação.
Apesar deste potencial, a história do GNV no Brasil e no mundo
nos mostra que os agentes envolvidos nesse mercado devem permanecer
atentos às mudanças de condições do mercado mundial de petróleo,
bem como aos seus efeitos sobre os preços dos combustíveis.
O crescimento sustentável no mercado GNV depende de uma política
bem definida e perene com relação aos preços e aos incentivos.
A
experiência do GNV na Nova Zelândia representa um bom exemplo
da importância da política de preços para o desenvolvimento
do mercado GNV. Como diversos outros países, a Nova Zelândia
iniciou seu programa de incentivo ao uso do GNV como uma das
soluções para enfrentar o aumento exorbitante da cotação do
barril de petróleo, logo após a crise dos anos setenta. A
escalada do preço do petróleo se revelaria catastrófica para
a balança comercial do país, haja visto que a Nova Zelândia
importava 90% da quantidade de petróleo consumida por sua
economia.
O
programa de implementação do GNV, iniciado em 1979, contou
com a fundamental colaboração do governo neozelandês, que
disponibilizou uma enorme gama de incentivos através de um
comitê (CNG Co-ordination Committee - CCC), especialmente
criado para fomentar o mercado em diversos segmentos. Dentre
os incentivos concedidos, destacam-se financiamento de pesquisas
técnicas e de mercado para a implementação do projeto; 100%
de empréstimos para a aquisição dos kits de conversão; e financiamentos
generosos para os postos abastecedores. Os números demonstram
sucesso nos diversos segmentos do mercado até o ano de 1985:
10% da frota do país (100.000 veículos) foi convertida para
o GNV. Entre 1979 e 1985, a taxa de crescimento médio da frota
GNV no país foi de 100%; de 1982 a 1986, a taxa média anual
das vendas de GNV foi de 50%.
A
política de GNV do país sofreu um grande retrocesso a partir
de 1984, quando o novo governo eliminou incentivos e liberalizou
o mercado de combustíveis. A desregulamentacão do mercado
de combustíveis provocou significativa redução do número de
postos GNV no país e eliminou impostos que incidiam sobre
o diesel. Com isto, o preço do diesel acompanhou a queda já
observada no preço da gasolina, esta última redução, motivada
pelas bruscas reduções nas cotações do barril de petróleo.
As vantagens comparativas do GNV perante ao diesel e à gasolina
praticamente desapareceram, assim como o número de conversões
para o GNV.
Uma
outra evidência da necessidade de uma política de preços diferenciada
para o mercado de GNV pode ser entrevista na experiência brasileira
do setor. As estatísticas do número de conversões para GNV
e das vendas do combustível no país (ver tabela abaixo) ao
longo da década de 90 atestam um início de crescimento acelerado
no mercado, correspondente ao período que vai do início da
década até o ano de 1994, o primeiro ano do Plano Real.
Após
1994, o mercado passa por um período de brusca desaceleração
no seu crescimento, motivada pela queda dos preços reais dos
combustíveis no país e pela aproximação dos preços entre o
GNV e a gasolina. A redução da diferença de preços entre o
GNV e a gasolina foi motivada pela apreciação da moeda nacional
e pela queda da cotação do barril de petróleo no mercado internacional.
Na ausência de uma política de incentivos clara para o mercado
GNV, os investimentos no mercado GNV reduziram-se bruscamente.

Fonte:
Duarte, Manuel dos Santos; De Senne, Adriano Alexandre; Dos
Santos Eros. “Mercado e Requisitos de Fabricação de Cilindros
de Gás Natural”. Sétimo Seminário Internacional de Gás Natural
– RJ – 22 a 24 Novembro 1999.
Experiências,
como a do Brasil e da Nova Zelândia, preconizam a necessidade
de uma política de incentivos sustentável para o setor de
GNV. Esta política deve ser atenta às condições do mercado
internacional do petróleo, de forma a não permitir que o preço
do GNV ultrapasse a ordem dos 50% do preço da gasolina no
varejo. A política fiscal e tributária pode ser um instrumento
efetivo para a manutenção dos incentivos do mercado GNV numa
conjuntura desfavorável do mercado internacional do petróleo.
Atualmente,
o estabelecimento da política de preços para o GNV está a
cargo dos Estados, responsáveis pela regulação da distribuição
de gás canalizado. A Portaria Interministerial Nº 3, de 17
de fevereiro de 2000 do MME e do Ministério da Fazenda, unificou
os preços máximos do gás que a Petrobrás vende às distribuidoras
estaduais. Entretanto, a Petrobrás continua vendendo o gás
para as distribuidoras com um preço diferenciado. Ou seja,
a Petrobrás continua arcando com os custos da promoção de
uma política de incentivos ao GNV. Entretanto, podemos nos
questionar se esta política é sustentável a longo prazo, com
a abertura do setor de gás à concorrência.
Neste
momento em que o mercado ainda não está totalmente estruturado
e consolidado, é essencial o estabelecimento de uma relação
fixa entre os preços do GNV e da gasolina. Para tanto, uma
questão importante a ser colocada é, se é possível manter
tal relação de preços, apenas com subsídios cruzados entre
os diferentes segmentos consumidores de gás natural. O mais
correto seria que, pelo menos uma parte destes subsídios pudessem
ser cobertos pelos consumidores de diesel e gasolina. Entretanto,
tal tipo de política extrapola a área de atuação dos reguladores
estaduais.
Além dos incentivos no
preço do GNV, o aumento do número de postos de abastecimento
deve ser prioridade na política setorial. Neste sentido, cabe
ressaltar que a ANP deu um passo positivo no sentido de incentivar
o aumento do número de postos GNV, através da Portaria número
32, de 6 de março de 2001. Esta portaria alterou positivamente
a margem dos postos GNV, quando possibilitou aos mesmos comprar
o GNV de qualquer distribuidora presente no mercado. Tal alteração
ampliou a competição no mercado, uma vez que a legislação
que vigorava anteriormente impelia o posto GNV a comprar o
combustível somente da distribuidora da sua correspondente
bandeira. Esta é mais uma evidência do papel fundamental desempenhado
por uma legislação pró-GNV para o progresso do mercado.
Tendo em vista as questões
acima mencionadas, é mister a conjunção de esforços dos vários
níveis de governo no sentido de buscarem juntos uma política
para o GNV sustentável a longo-prazo. O GNV não mais representa
uma opção futura de um combustível substituto para a gasolina,
e sim uma oportunidade real de expressivos investimentos e
de geração de empregos, sem contar com os efeitos positivos
sobre as categorias profissionais, como os taxistas, por exemplo,
que têm sua renda diretamente relacionada com o custo dos
combustíveis.
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